
MARIA JOANA MOREIRA MENDES LEAL
(1896-1976)
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Por António Ferreira de Sousa
Filha de José Joaquim Mendes Leal e de Maria da Conceição Mendes Moreira, nasce em 12 de Outubro de 1896. O seu pai dispensa-lhe nos primeiros anos de vida uma educação típica de “filha-família”, ensinando-lhe as primeiras letras. O facto de entretanto ser indicado para presidente da Câmara dos Deputados, nos anos de 1909 e 1910, faz com que Maria Joana dê entrada no Instituto Infante D. Afonso, mais conhecido por Instituto de Odivelas. O eclodir do 5 de Outubro obriga a família a refugiar-se no Torroselo, de onde é originária, nas faldas da Serra da Estrela. Entre esta data e 1922 poucas notícias há de Maria Joana, a não ser a troca de correspondência com seu pai, com a vida dispersa entre o Torroselo e a casa em Lisboa.
Em 1922 Maria Joana publica o seu primeiro livro, com imprimatur dado pelo Arcebispo de Mitilene, indicando que à época já milita nas fileiras católicas. Das suas ligações ao Noelismo e ao Padre Júlio Marinho S.J., seu confessor, radica a sua ligação à Associação Católica Internacional da Obra de Protecção às Raparigas (OPR), depois de se ter afirmado como colunista exímia no jornal católico As Novidades. As manifestações públicas de apoio à OPR ocorridas na Sociedade de Geografia em 1935, a condecoração Pro Ecclesia et Pontífice atribuída por Pio XI, dão-lhe a notoriedade necessária para o reconhecimento por parte do Estado Novo, conferindo-lhe cargos políticos de destaque, quer como vogal da direcção da Obra das Mães pela Educação Nacional quer como directora do Boletim da Mocidade Portuguesa Feminina, a partir de 1949 Menina e Moça. As viagens que realiza por todo o país, quer ao serviço da OPR quer da MPF, dão-lhe grande visibilidade pública. A partir de 1939 é membro da Junta Nacional de Educação e, a partir de 1942, é procuradora à Câmara Corporativa em três legislaturas representando as Associações Particulares de Assistência. A partir de 1952 é eleita para a Junta Internacional da Protecção da Moralidade Pública e, passados dois anos, publica O Santo Padre Cruz. Em 1958 envolve-se na contenda política apelando ao voto em Américo Tomás. Em 1967 abandona o cargo de Presidente Nacional da OPR, passando a presidir ao seu Conselho Consultivo.
No decorrer da sua actividade à frente do jornal A Protecção, orgão da OPR, é a principal redactora dos artigos ideológicos dados à estampa, veiculando de forma sistemática os valores do apego à ruralidade e da moral cristã, enquanto modelos únicos de atitudes e comportamentos, conducentes ao retorno das mulheres ao lar e à maternidade, na trilogia de “esposas, mães e educadoras”, combatendo o que se possa relacionar com o prazer, sejam momentos de ócio ou de festa, tempo de praias ou de lazer. A estratégia que utiliza de se encobrir no anonimato, denuncia o cuidado que nos mesmos é posto, numa especial didáctica de exemplo, longe da abstracção de um discurso teórico menos assimilável. Os por vezes longos artigos que publica nas páginas do A Protecção, estendendo-se por dois ou três números do jornal, revelam a prolixidade de Maria Joana na defesa do que a autora considera “virtudes” das mulheres, como sejam o labor dos campos, a entreajuda familiar, o cuidar do marido e dos filhos, da casa e da boa ordem familiar, tal como é percepcionado quer pelo regime quer pela Igreja católica, numa similitude de propósitos e desejos. Às mulheres, numa inferioridade ditada pelas encíclicas papais, como se encontra expresso na Casti conubii, “se o homem é a cabeça a mulher é o coração”, atribuindo aos homens uma pretensa legitimidade de superioridade intelectual ditada pela “natureza”, tem por consequência que os diferentes aspectos da vida quotidiana, da educação ao trabalho, do casamento à fidelidade conjugal, sejam sempre percepcionados de molde a que às mulheres seja remetida a culpa primordial, inserindo-se no modelo protagonizado pela Santa Rita de Cassia, encarando o casamento como calvário terreno a que não se pode eximir.
Publica milhares de artigos e profere centenas de conferências ao longo da sua vida, tornando-se uma figura proeminente da vida católica e política do país. A sua morte, após doença prolongada, ocorre em Janeiro de 1976.
António Ferreira de Sousa
António Ferreira de Sousa
Doutorando em Ciências da Educação, mestre em Estudos sobre as Mulheres. Investigador de Faces de Eva – Centro de Estudos sobre a Mulher da UNL. Bolseiro de doutoramento da FCT.