História e Universos Femininos


A autobiografia de uma freira-escritora do século XVII


"Uns me notavam de invencioneira e outros de singular"
Clara do Santíssimo Sacramento



Por Dalila Milheiro





Antónia Margarida de Castelo Branco, também conhecida por Antónia Margarida de Albuquerque, nasce na vila do Lavradio, a 4 de Agosto de 1652. É filha dos nobres António de Albuquerque e Joana Luísa de Castelo Branco e tem um irmão de nome Afonso de Albuquerque.

Em 1670 casa-se com Brás Teles de Meneses e Faro, um nobre em decadência com uma personalidade atroz. Dois anos depois nasce o seu único filho Brás Manuel.

Após ter sido sujeita a todo o tipo de maus tratos por parte do marido e já com o despontar de uma religiosidade iminente, Antónia Margarida vai para o convento de Santos, em 1675. A sentença de divórcio perpétuo sai em 1679, o que lhe permite seguir a vida religiosa. A 27 de Março de 1679, entra como noviça para o Convento da Madre de Deus, em Lisboa. Professa quatro dias depois, tendo recebido o nome de Clara do Santíssimo Sacramento. Até ao final dos seus dias irá viver no convento que a acolhe, falecendo a 15 de Janeiro de 1717.

A sua autobiografia, Fiel e Verdadeyra Relação...1 , surge como um exercício obrigatório imposto pelos seus confessores, ora aceite com conformismo, ora repudiado com violência. A escrita dos sucessos da sua vida é iniciada em 1681, mas em 1685 volta a escrever os cadernos que tinha “borrado”. A versão actual da autobiografia corresponde à de 1685, dedicando-a ao seu Director actual, Frei João de Santo Estevão. Soror Clara do Santíssimo Sacramento escreve a relação da sua vida até ao dia 30 de Dezembro de 1703.

A Fiel e Verdadeyra Relação... é uma autobiografia de religiosa que se integra no género da autobiografia espiritual, que corresponde a uma faceta importante da produção literária no período barroco. À semelhança de outras autobiografias da época põe em cena uma personagem exemplar no seu percurso de vida, de expiação e de redenção espiritual. Ao ser uma personagem exemplar, obedece a uma finalidade de difusão de um ideal de fé, mas simultaneamente revela a história real de uma pessoa concreta, única, com as suas particularidades e acidentes. Esta narrativa comporta deste modo uma ambiguidade, pois apesar de se encaixar nos topos convencionais, não deixa contudo de ser um documento vivo de alguém que existiu, amou, sofreu.

Clara do Santíssimo Sacramento pode ser definida como um ser em permanente conflito consigo mesma. Revela-se dominada e dilacerada por contendas, pelo sentimento do pecado e da imperfeição e pelo sofrimento que percorre a sua vida. Os sentimentos mais profundos são descritos por si como um quadro realista de emoções.

Entendemos a escrita da Religiosa como uma escrita de sentimentos, uma escrita que espelha os seus tormentos e as suas emoções. Esta escrita atormentada e metafórica descortina um mundo em mudança e revela a Mulher através da escrita.

A Fiel e Verdadeyra Relação... encontra-se em sintonia com os cânones estéticos do barroco, na medida em que evidencia um mundo que é palco de mutações, de lutas e onde a salvação representa o ideal a atingir pelo ser humano. No centro do palco desse mundo encontramos uma Mulher que reflecte a mentalidade e os tormentos dessa época.

A história da vida de Clara do Santíssimo Sacramento, escrita na primeira pessoa, traz a paixão e o sofrimento, arranca o silêncio através da palavra e faz ouvir uma voz que ecoa numa escrita moldada pelas emoções.

Dalila Milheiro      

(1) O nome completo da obra é Fiel e Verdadeyra Relação que dá dos sucessos de sua vida a creatura mais ingrata a seu Creador por obediencia de seus Padres espirituaes e novamente tornada a escrever por hum sucesso na era de 1685 annos. Esta obra foi transcrita e editada por João Palma-Ferreira com o título Autobiografia 1652-1717, em 1984, pela INCM, a partir do manuscrito da Biblioteca Nacional que se considera autógrafo.


Dalila Maria Teixeira Milheiro
Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Estudos Portugueses pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Mestra em Estudos sobre as Mulheres pela Universidade Aberta. Professora Efectiva do 8º Grupo A.