Adelaide Cabete (1867-1935)

Uma Professora Feminista

Por Joaquim Eduardo

Adelaide Cabete é uma das figuras importantes da história portuguesa do início do século XX. Foi médica e professora, Nasceu em Elvas, em 25 de Janeiro de 1867 e faleceu em Lisboa, em 14 de Setembro de 1935. De origem humilde e órfã, desde criança conheceu o duro trabalho da ameixa e doméstico, em casas ricas de Elvas, nas quais, de ouvido, aprendeu os rudimentos da escrita e leitura. Cantando «Saias» na passeira das ameixas, atraiu a atenção de Manuel Cabete. Casaram e o marido, que a ajudava nas tarefas domésticas, lançou-a nos estudos e na militância republicana e feminista. Já com 22 anos fez o exame de instrução primária. Em 1895, mudam-se para Lisboa, onde é uma aluna ainda mais aplicada, dizendo-se que enquanto lavava o chão de sua casa, ia revendo as matérias de Anatomia no livro encostado ao balde. Foi uma das pioneiras na Universidade, na Maçonaria e no Feminismo. Na capital torna-se médica ( Ginecologista/Obstetra com consultórios na Baixa), publicista, republicana, maçon, feminista, anti–alcoólica, abolicionista, pacifista e defensora dos animais. Em 1929 vai com o sobrinho Arnaldo Brasão para Luanda, de onde regressa em 1934.

Foi médica e professora das «meninas de Odivelas», regendo a disciplina de Higiene e Puericultura, durante 17 anos, no Instituto Feminino de Educação e Trabalho. A experiência docente, as teorias pedagógicas, com exemplos práticos, que apresentou em Congressos, e as suas reivindicações de carácter feminista permitem considerá-la uma professora feminista.

Com outras mulheres feministas também importantes, criou e integrou organizações feministas, nelas exercendo diversos cargos. Foi mais de 20 anos Presidente do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas. Representou no estrangeiro o governo português. Boa oradora, participou em Congressos e Conferências. Escreveu dezenas de artigos, de temática diversa, essencialmente de carácter médico–sanitário e cariz feminista. Manifestou as suas preocupações sociais, apresentando soluções e medidas profiláticas de doenças e epidemias.

Benemérita, defendeu sempre as mulheres grávidas pobres, as crianças, as prostitutas e os indígenas (Angola). Radical, por vezes, em assuntos de decência feminina, mostrou-se contrária à importação da moda feminina, criticando as saias curtas e recomendando o uso da saia até um palmo do chão. Humanista, aplaudiu o encerramento de tabernas e manifestou-se contra a violência nas touradas, o uso de brinquedos bélicos, etc., revelando-se uma vanguardista ao suscitar temas que mantêm a sua atualidade. Na maçonaria, com ideias de fraternidade, progresso e justiça, atingiu o grau de “Venerável” (20º-Grau do rito escocês com 35 Graus). Quando escrevia contra os monárquicos e os jesuítas denotava os seus ideais republicanos, confirmados no interior da Liga Republicana das Mulheres, a que esteve ligada. De ideias progressistas e muito avançadas para a época, reivindicou para as mulheres o direito a um mês de descanso antes do parto.

Alguns factos emolduram a sua vida pública, com atos simbólicos de cidadania e patriotismo. Em 1910, com duas companheiras, coseu e bordou a bandeira nacional hasteada na implantação da República, na Rotunda, em Lisboa. Em 1912 reivindicou o voto das mulheres. E em 1933 foi a primeira e única mulher a votar em Luanda a Constituição Portuguesa.

Mulher dinâmica, de forte personalidade e grande frontalidade. O seu dinamismo não a deixou dormir sobre os louros conquistados. A sua ação não se limitou a teorias, traduziu-se em realidades práticas. Carinhosa e bondosa, de estilo simples, objetiva, de linguagem clara, Adelaide Cabete deixa-nos uma obra importante.

Joaquim Eduardo


Joaquim Eduardo

Mestrando em Estudos sobre as Mulheres, Universidade Aberta. Licenciado em Ensino da Geografia, Universidade de Lisboa (1993), Participação, como conferencista (Universidade Aberta), no Seminário Evocativo do 1º Congresso Feminista e de Educação, Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa (4 – maio – 2004), Técnico Superior Principal da Presidência do Conselho de Ministros, Serviços Sociais, Divisão de Acão Social, com funções de Assistência Social, Saúde e Animação.


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