
Editorial
Dignidade para a profissão de professor precisa-se!
Dignidade para o professor de História!
Face aos actuais ajustamentos curriculares, a situação de muitos professores tornou-se insustentável.
Foi também o caso dos professores de História, sobretudo aqueles que trabalham nas escolas do 3º ciclo do ensino básico. A maior parte de nós tem, neste ano lectivo que agora se iniciou, entre sete a dez turmas. É impossível, com um bloco semanal de História, diversificar práticas pedagógicas; é impossível, como refere o documento das Metas de Aprendizagem para o 3º ciclo, reforçar “a abordagem disciplinar especializada, de modo a garantir o aprofundamento e o rigor das diferentes aquisições do conhecimento científico e cultural (...) e desenvolver em conjunto a capacidade de interpretação da realidade em que os alunos vivem e agem como cidadãos.” O mesmo documento diz ainda que o 3º ciclo se orienta “na linha das tendências curriculares dominantes para este nível de ensino no conjunto dos países do mundo ocidental, para a consolidação e aprofundamento de conhecimentos, métodos e competências que permitam o prosseguimento e aprofundamento de estudos e a inserção em percursos de vida activa.”
Os professores de História têm, em muitos casos, um número total de alunos que oscila entre os 230 e os 290. Como atender a ritmos individuais de aprendizagem? Como diversificar metodologias de trabalho? Como consolidar e aprofundar conhecimentos, métodos e competências?
A História é um saber de referência. Relembremos as duas últimas frases do texto da Petição Nacional nº 178/XI/2ª, intitulada Em favor do ensino da História, subscrita por 4960 pessoas: “Quando encaradas de forma objectivante, as disciplinas de história podem, igualmente, contribuir para a formação e a consolidação de uma consciência social aberta, democrática e participativa. Fazem-no contextualizando fenómenos complexos; viabilizando posturas menos alienantes face às problemáticas da multiculturalidade e das identidades (locais, regionais, nacionais e globais; sexuais e etárias, socioeconómicas e socioculturais, político-ideológicas e étnico-religiosas); treinando-nos para lidar com as diferenças e as semelhanças, as mudanças e as permanências, a cooperação e a conflitualidade, as situações de crise ou estagnação e de progresso; tornando conjecturável o relacionamento entre o passado, o presente e eventuais cenários futuros.”
“Para que o ensino da história corresponda a estas expectativas é, no entanto, relevante que se baseie nos pressupostos epistemológicos, nos conceitos teóricos, nas metodologias de reconstituição e interpretação da “nova historiografia”; numa didáctica promotora da qualidade, da criatividade e da autonomia; numa escola de intervenção globalizante. Urge, deste modo, inverter a tendência descrita e encontrar soluções alternativas, debatendo, nomeadamente, planos curriculares, formação inicial e contínua de professores, legislação de enquadramento da escola e da profissão docente.”
Foi também isto que a APH foi dizer na Assembleia da República, quando fomos recebidos, no dia 30 de Agosto de 2011, no seguimento desta Petição Nacional nº 178/XI/2ª:
- A História é um saber estruturante que contribui para compreender a realidade envolvente, para uma maior integração social e profissional, para o aprofundamento da democracia através de metodologias de trabalho que permitem analisar e questionar diferentes perspectivas. Esse trabalho sério só poderá concretizar-se se for lhe atribuído um maior peso curricular no ensino básico e, também, noutras áreas do ensino secundário, onde a História está ausente(1);
-É fundamental que seja alterada a formação inicial e contínua dos professores de História. Os futuros professores de História devem ter uma formação específica em História, ou seja, uma licenciatura nesta área científica. Por outro lado, a sua formação contínua deve ser uma formação apropriada às suas necessidades quer ao nível científico quer didáctico/metodológico.
-Os programas em vigor necessitam ser adequados/adaptados aos diferentes documentos curriculares, bem como às avaliações externas actualmente existentes.
Fazemos um apelo a todos os professores de História: envie-nos um e-mail com o nome da sua escola, localidade, número de turmas e alunos que tem à sua responsabilidade. Agradecemos também que nos diga qual o número de turmas que leccionava no ano lectivo anterior. Isto permitir-nos-á ter informações mais concretas para debater este problema com o Ministério da Educação.
Denuncie! Participe!
A Direcção da APH
(1) Curiosamente, isto mesmo foi dito recentemente pela conceituada economista brasileira, Maria da Conceição Tavares, que afirma categoricamente que aos economistas faz falta saber História, mais do que Matemática, porque mais do que números, é preciso ter em conta as pessoas e é preciso ter em conta a reflexão sobre o passado (veja-se em http://www.youtube.com/watch?v=FebPPRNtBAU).